Mário Pereira  ·  Fisioterapeuta  ·  Cédula profissional OF 6744 Consultas  ·  Parque das Nações, Lisboa  ·  Online
Mário Pereira fisioterapeuta
Recuperação depois de cirurgia à coluna

A cirurgia resolveu a estrutura. Falta recuperar a confiança.

É frequente sair do bloco com o problema anatómico tratado e continuar sem saber o que se pode fazer, até onde se pode ir, ou porque é que ainda dói.

Ninguém costuma explicar essa parte. E é essa parte que decide se volta a ter a vida que tinha.

Reconhece-se nalguma destas?
Fez a cirurgia e a dor não desapareceu como esperava
Já não tem dor forte, mas evita dobrar-se ou pegar em pesos
Perdeu força ou massa muscular durante a recuperação
Ninguém lhe explicou com clareza até onde pode ir
Quer voltar a treinar, a jardinar ou a pegar nos netos ao colo
Sente que "a cirurgia não resultou" e ficou por ali

Basta reconhecer-se numa. São situações diferentes, com caminhos diferentes.

Antes de mais

A cirurgia devia ser a última das opções. Às vezes é mesmo a certa.

Para a esmagadora maioria dos problemas de coluna, a literatura recomenda começar pelo tratamento conservador — muitas vezes antes ainda de exames de imagem e de medicação. Só um punhado de situações muito específicas foge a essa regra.

Mas há casos em que não há alternativa: a situação é mesmo cirúrgica, ou o tratamento conservador foi tentado e não conseguiu ajudar. Nesses casos a cirurgia é indicada, e é a decisão certa.

Se já passou por uma cirurgia, isto não é um julgamento sobre a sua decisão. É o contrário: é a razão pela qual o que vem depois da cirurgia merece tanto cuidado como ela.

Há duas situações muito diferentes por trás da mesma frase

"Fiz uma cirurgia à coluna e não estou bem" pode querer dizer duas coisas quase opostas. Confundi-las leva a tratar a pessoa errada da forma errada.

Situação 1
A dor continua

Passaram meses e a dor não desapareceu como esperava, ou mudou de carácter e instalou-se. Isto tem um nome próprio e uma classificação própria — chama-se dor pós-cirúrgica crónica, e é definida como dor que persiste para além do processo de cicatrização, pelo menos três meses depois da intervenção.

Ter um nome importa mais do que parece: significa que não é imaginação sua, não é falta de força de vontade, e não é necessariamente sinal de que a cirurgia correu mal.

Situação 2
A dor passou, mas o medo ficou

Já não tem dor grave — às vezes uma dor irritante e persistente, às vezes nenhuma — mas continua a evitar dobrar-se para a frente, a não pegar no neto ou no filho ao colo, a adiar o regresso ao ginásio porque não se sente confiante. Perdeu força durante os meses de recuperação, e ninguém lhe disse com clareza até onde pode ir.

Esta é, na minha experiência, a mais comum das duas — e a que mais frequentemente fica sem tratamento nenhum, porque "correu tudo bem" na consulta de seguimento.

Articulo-me com quem o operou. Não trabalho contra.

Cada cirurgia tem as suas restrições, os seus prazos e as suas particularidades. Uma artrodese não é uma microdiscectomia, e o que é seguro num caso pode não ser noutro.

Por isso vou querer saber exatamente o que lhe foi feito, em que nível, há quanto tempo, e que indicações lhe deram. Se houver dúvida relevante sobre o que pode ou não fazer nesta fase, digo-lhe para confirmar com o seu cirurgião antes de avançarmos — não adivinho.

O objetivo não é contrariar a cirurgia. É aproveitá-la — dar-lhe a capacidade física que a operação, sozinha, não devolve.

Perguntas frequentes

Se a sua não estiver aqui, pergunte-me diretamente.

Já passou muito tempo e ainda dói. A cirurgia falhou?

Não necessariamente, e essa conclusão é injusta consigo. Existe uma entidade reconhecida internacionalmente chamada dor pós-cirúrgica crónica — dor que persiste para além da cicatrização, pelo menos três meses depois da intervenção. Está classificada na CID-11 precisamente porque é suficientemente frequente para ter um lugar próprio. Ter dor não significa que a operação não tenha corrigido o que foi corrigir.

Posso fazer ginásio depois de uma artrodese?

Em muitos casos sim, com progressão adequada e ajustes em alguns movimentos. Mas depende do que lhe foi feito, em que nível, e há quanto tempo — e das indicações que a sua equipa cirúrgica lhe deu. Vou querer saber tudo isso antes de responder, e se ficar com dúvida relevante peço-lhe para confirmar com o cirurgião. Não adivinho por si.

Preciso de autorização do meu médico para começar fisioterapia?

Em Portugal pode dirigir-se diretamente a um fisioterapeuta, sem encaminhamento. No caso de pós-operatório, no entanto, gosto de saber o que consta do relatório cirúrgico e das indicações que lhe deram — não por obrigação legal, mas porque muda o que é seguro fazer e quando.

Falam-me numa segunda cirurgia. O que devo pensar?

Que a decisão é sua e do seu médico, não minha — mas que vale a pena perceber bem o que se espera ganhar com ela e que alternativas existem. Uma coisa que vale a pena saber: para dor lombar sem causa estrutural identificada, a evidência atual não apoia a fusão vertebral, e um ensaio com 349 adultos não encontrou vantagem da fusão sobre reabilitação intensiva na capacidade funcional. Isso não se aplica a todos os casos, mas é uma pergunta legítima a fazer a quem lhe propõe operar.

Sinais que não podem esperar por uma marcação

Nada nesta página substitui uma avaliação com um profissional de saúde. E há situações em que nem sequer é caso para fisioterapia:

é caso para atendimento médico urgente, no próprio dia.

Na coluna, em geral
Dor forte que não alivia em nenhuma posição e que piora de dia para dia
Perda de sensibilidade que piora de dia para dia, numa perna ou num braço
Febre, sem nenhuma infeção conhecida que a explique
Perda de peso sem explicação — cerca de 10% do peso em seis meses, sem dieta nem exercício que a justifiquem
Quando a origem é na lombar
Podem indicar síndrome da cauda equina.
Dormência ou alteração de sensibilidade em toda a zona que a roupa interior cobre — genitais, períneo e parte interna das coxas
Deixar de conseguir segurar a urina ou as fezes
Ou exatamente o oposto: deixar de conseguir urinar ou evacuar
Perda de força numa perna, sobretudo se estiver a agravar
Quando a origem é no pescoço
Podem indicar mielopatia cervical.
Alteração da marcha que apareceu de repente — sensação de andar como se estivesse embriagado
Perder a força ou a sensação de repente e deixar cair da mão objetos leves
Ir perdendo mobilidade do braço de um dia para o outro
Falta de jeito nova em movimentos finos: abotoar, escrever, apanhar moedas
Nestes casos o caminho é só um: serviço de urgência.

Uma consulta médica no próprio dia, o mais depressa possível, com neurocirurgia ou ortopedia de coluna.

Não é caso para fisioterapia, nem para qualquer outro profissional de saúde.

E não é caso para esperar para ver se melhora. Aqui, o tempo é o que mais pesa no resultado: quanto mais depressa for visto por um médico, melhor.

Ver todos os sinais, por zona, e o que fazer em cada caso

Diga-me o que lhe fizeram e o que ainda não consegue fazer.

Que cirurgia, há quanto tempo, e qual é o movimento que evita. Com isso já consigo dizer-lhe bastante, e com franqueza.

Conversa inicial sem custo. Respondo sempre — e, na maior parte das vezes, no próprio dia.

Referências

Cashin AG e col. Revisão sobre lombalgia inespecífica. JAMA, 2026. — proporção de lombalgia inespecífica e de radiculopatia/estenose entre quem procura cuidados; alterações degenerativas na ressonância em pessoas sem dor lombar (74,4%) e com dor (77,8%); recomendações sobre o uso de exame de imagem; eficácia do exercício na lombalgia crónica e dos tratamentos invasivos.

Schug SA e col., força-tarefa da IASP. Classificação da dor crónica para a CID-11: dor pós-cirúrgica e pós-traumática crónica. 2019. — definição de dor pós-cirúrgica crónica (persistência para além da cicatrização, pelo menos três meses após a intervenção) e a sua classificação formal, incluindo o subdiagnóstico após cirurgia espinal.

Brinjikji W e col. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR American Journal of Neuroradiology. 2015;36(4):811-816. — prevalência de achados degenerativos em pessoas sem sintomas, por faixa etária.

Síntese de literatura sobre mitos e crenças em dor (Melzack 1999; Moseley 2003; Seki & Ouchi 2020) — fraca correlação entre dor e alterações estruturais em exames de imagem, em várias regiões do corpo.

O que nesta página não remete para estas referências é leitura clínica minha, assinalada como tal ao longo do texto. Nenhuma informação aqui substitui uma avaliação individual.