É frequente sair do bloco com o problema anatómico tratado e continuar sem saber o que se pode fazer, até onde se pode ir, ou porque é que ainda dói.
Ninguém costuma explicar essa parte. E é essa parte que decide se volta a ter a vida que tinha.
Basta reconhecer-se numa. São situações diferentes, com caminhos diferentes.
Para a esmagadora maioria dos problemas de coluna, a literatura recomenda começar pelo tratamento conservador — muitas vezes antes ainda de exames de imagem e de medicação. Só um punhado de situações muito específicas foge a essa regra.
Mas há casos em que não há alternativa: a situação é mesmo cirúrgica, ou o tratamento conservador foi tentado e não conseguiu ajudar. Nesses casos a cirurgia é indicada, e é a decisão certa.
Se já passou por uma cirurgia, isto não é um julgamento sobre a sua decisão. É o contrário: é a razão pela qual o que vem depois da cirurgia merece tanto cuidado como ela.
"Fiz uma cirurgia à coluna e não estou bem" pode querer dizer duas coisas quase opostas. Confundi-las leva a tratar a pessoa errada da forma errada.
Passaram meses e a dor não desapareceu como esperava, ou mudou de carácter e instalou-se. Isto tem um nome próprio e uma classificação própria — chama-se dor pós-cirúrgica crónica, e é definida como dor que persiste para além do processo de cicatrização, pelo menos três meses depois da intervenção.
Ter um nome importa mais do que parece: significa que não é imaginação sua, não é falta de força de vontade, e não é necessariamente sinal de que a cirurgia correu mal.
Já não tem dor grave — às vezes uma dor irritante e persistente, às vezes nenhuma — mas continua a evitar dobrar-se para a frente, a não pegar no neto ou no filho ao colo, a adiar o regresso ao ginásio porque não se sente confiante. Perdeu força durante os meses de recuperação, e ninguém lhe disse com clareza até onde pode ir.
Esta é, na minha experiência, a mais comum das duas — e a que mais frequentemente fica sem tratamento nenhum, porque "correu tudo bem" na consulta de seguimento.
Não é motivação nem força de vontade. É trabalho progressivo e específico — e o que se faz muda bastante conforme o tempo que passou desde a operação.
Que cirurgia, em que nível, há quanto tempo, e com que restrições. É informação que muda tudo o que vem a seguir, e que vou querer ver preto no branco antes de lhe tocar.
Uma cicatriz que adere aos planos por baixo limita movimento e incomoda durante anos. Trabalhá-la cedo ajuda-a a ficar mais flexível e reduz o risco de aderências e de cicatriz em relevo.
Devolver movimento à coluna e às ancas dentro do que é seguro para a sua fase. Devagar, e sempre dentro das indicações que lhe deram no bloco.
É muito mais fácil evitar o medo do movimento do que desfazê-lo dois anos depois. Por isso, desde a primeira consulta, explico-lhe o que está a acontecer e porquê.
Que cirurgia, em que nível, há quanto tempo, e o que foi ou não foi feito depois. Muita gente chega aqui sem nunca ter tido reabilitação nenhuma.
Depois de meses ou anos, é frequente o nervo ter perdido capacidade de deslizar entre os tecidos à volta. Trabalha-se isso de forma específica, e costuma dar retorno.
O medo de certos movimentos tem nome — cinesiofobia — e trata-se por exposição gradual: aproximar-se do gesto temido aos poucos, com controlo, até deixar de representar ameaça.
Perde-se muita massa muscular numa recuperação longa, e é essa perda — não a operação — que costuma limitar o que consegue fazer hoje. Recupera-se, mesmo anos depois.
Cada cirurgia tem as suas restrições, os seus prazos e as suas particularidades. Uma artrodese não é uma microdiscectomia, e o que é seguro num caso pode não ser noutro.
Por isso vou querer saber exatamente o que lhe foi feito, em que nível, há quanto tempo, e que indicações lhe deram. Se houver dúvida relevante sobre o que pode ou não fazer nesta fase, digo-lhe para confirmar com o seu cirurgião antes de avançarmos — não adivinho.
O objetivo não é contrariar a cirurgia. É aproveitá-la — dar-lhe a capacidade física que a operação, sozinha, não devolve.
Se a sua não estiver aqui, pergunte-me diretamente.
Não necessariamente, e essa conclusão é injusta consigo. Existe uma entidade reconhecida internacionalmente chamada dor pós-cirúrgica crónica — dor que persiste para além da cicatrização, pelo menos três meses depois da intervenção. Está classificada na CID-11 precisamente porque é suficientemente frequente para ter um lugar próprio. Ter dor não significa que a operação não tenha corrigido o que foi corrigir.
Em muitos casos sim, com progressão adequada e ajustes em alguns movimentos. Mas depende do que lhe foi feito, em que nível, e há quanto tempo — e das indicações que a sua equipa cirúrgica lhe deu. Vou querer saber tudo isso antes de responder, e se ficar com dúvida relevante peço-lhe para confirmar com o cirurgião. Não adivinho por si.
Em Portugal pode dirigir-se diretamente a um fisioterapeuta, sem encaminhamento. No caso de pós-operatório, no entanto, gosto de saber o que consta do relatório cirúrgico e das indicações que lhe deram — não por obrigação legal, mas porque muda o que é seguro fazer e quando.
Que a decisão é sua e do seu médico, não minha — mas que vale a pena perceber bem o que se espera ganhar com ela e que alternativas existem. Uma coisa que vale a pena saber: para dor lombar sem causa estrutural identificada, a evidência atual não apoia a fusão vertebral, e um ensaio com 349 adultos não encontrou vantagem da fusão sobre reabilitação intensiva na capacidade funcional. Isso não se aplica a todos os casos, mas é uma pergunta legítima a fazer a quem lhe propõe operar.
Nada nesta página substitui uma avaliação com um profissional de saúde. E há situações em que nem sequer é caso para fisioterapia:
é caso para atendimento médico urgente, no próprio dia.
Uma consulta médica no próprio dia, o mais depressa possível, com neurocirurgia ou ortopedia de coluna.
Não é caso para fisioterapia, nem para qualquer outro profissional de saúde.
E não é caso para esperar para ver se melhora. Aqui, o tempo é o que mais pesa no resultado: quanto mais depressa for visto por um médico, melhor.
Ver todos os sinais, por zona, e o que fazer em cada casoQue cirurgia, há quanto tempo, e qual é o movimento que evita. Com isso já consigo dizer-lhe bastante, e com franqueza.
Conversa inicial sem custo. Respondo sempre — e, na maior parte das vezes, no próprio dia.
Cashin AG e col. Revisão sobre lombalgia inespecífica. JAMA, 2026. — proporção de lombalgia inespecífica e de radiculopatia/estenose entre quem procura cuidados; alterações degenerativas na ressonância em pessoas sem dor lombar (74,4%) e com dor (77,8%); recomendações sobre o uso de exame de imagem; eficácia do exercício na lombalgia crónica e dos tratamentos invasivos.
Schug SA e col., força-tarefa da IASP. Classificação da dor crónica para a CID-11: dor pós-cirúrgica e pós-traumática crónica. 2019. — definição de dor pós-cirúrgica crónica (persistência para além da cicatrização, pelo menos três meses após a intervenção) e a sua classificação formal, incluindo o subdiagnóstico após cirurgia espinal.
Brinjikji W e col. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR American Journal of Neuroradiology. 2015;36(4):811-816. — prevalência de achados degenerativos em pessoas sem sintomas, por faixa etária.
Síntese de literatura sobre mitos e crenças em dor (Melzack 1999; Moseley 2003; Seki & Ouchi 2020) — fraca correlação entre dor e alterações estruturais em exames de imagem, em várias regiões do corpo.
O que nesta página não remete para estas referências é leitura clínica minha, assinalada como tal ao longo do texto. Nenhuma informação aqui substitui uma avaliação individual.