Uns dias quase não dá por ela. Noutros não consegue calçar os sapatos. Muda de sítio, muda de intensidade, e nenhum exame mostra nada que justifique tudo isto.
É o padrão que mais vejo em consulta. Nesta página explico-lhe como o interpreto, porque é que a imagem não o mostra, e o que costuma fazer diferença.
Se marcou três ou mais, vale a pena ler o resto desta página com atenção.
Na sua coluna existem articulações verdadeiras, chamadas facetas articulares — pequenas, fechadas por uma cápsula, com líquido lubrificante lá dentro e cartilagem a revestir as superfícies ósseas. Essa cápsula forma, por dentro, pequenas dobras de tecido, que podem dobrar-se para o interior da própria articulação.
A ideia é simples, e vale para duas coisas ao mesmo tempo: um pequeno fragmento de cartilagem solto no líquido, ou a própria dobra da cápsula. Enquanto qualquer um deles está numa posição neutra, não há sintomas nenhuns. Mas se, com determinado movimento, ficar comprimida entre as duas superfícies da articulação, isso gera dor. Assim que o movimento certo a liberta, alivia.
É por isso que a dor muda de intensidade e de sítio conforme a posição, e é por isso que uns dias são melhores do que outros sem que nada de especial tenha acontecido. A mesma lógica pode aplicar-se ao disco entre as vértebras — e, muitas vezes, as duas coisas contribuem ao mesmo tempo.
Aquilo que costuma agravar e aquilo que costuma aliviar. Se se reconhecer nas duas listas, já sabe mais sobre o seu caso do que a maioria dos exames lhe diria.
Calçar sapatos, lavar os dentes, apanhar alguma coisa do chão, sair da cama de manhã. É o gesto que mais vezes ouço descrito.
Uma hora ao computador ou no carro, e os primeiros passos custam. Depois de alguns metros, começa a soltar.
Numa fila, a cozinhar, num evento. Estar parado em pé costuma ser pior do que andar.
Rigidez ao acordar que tende a melhorar 30 a 60 minutos depois de se levantar e começar a mexer-se.
No treino pode ser mais difícil no início, melhorar com o aquecimento, e agravar outra vez quando arrefece.
Fins de semana no sofá, viagens longas, períodos de doença. Menos movimento costuma dar mais sintomas, não menos.
Muitas vezes é a coisa mais simples e mais eficaz. Alguns minutos a caminhar e o quadro muda.
Não existe a posição certa. Existe não ficar demasiado tempo na mesma — seja ela qual for.
Quase sempre há uma direção que alivia de forma consistente. Encontrá-la é grande parte do trabalho da avaliação.
Descarregar a coluna alguns minutos e voltar a mover pode reiniciar o quadro num dia mau.
Repetições suaves na direção certa costumam fazer mais do que um alongamento longo e forçado.
Parar por completo costuma prolongar o problema. O objetivo é ajustar a carga, não eliminá-la.
Um estudo com 3369 adultos, com 53 anos em média. Entre quem tinha dor nas costas, 77,8% mostrava estas alterações. Entre quem não tinha dor nenhuma, 74,4% — praticamente o mesmo. Publicado em 2026 na revista médica JAMA.
Porque o que causa a dor não é uma estrutura partida — é uma situação que acontece em certas posições e desaparece noutras. Uma ressonância é uma fotografia tirada com a pessoa deitada e quieta. Não capta um comportamento.
E há uma coisa que raramente lhe explicam: as alterações que o exame encontra — desgaste, artrose, abaulamento — aparecem em imensa gente que não tem dor nenhuma. Ter desgaste não é, por si só, sinal de que é dali que vem a dor.
O que faz a diferença é perceber se, neste momento, há ali algum processo ativo a irritar o tecido. E isso avalia-se com o corpo à frente: testando movimentos, repetindo-os, e observando o que acontece aos sintomas em cada direção.
Identificam-se as posições e movimentos que aliviam, e os que agravam, e ajusta-se o dia a dia nesse sentido — até o quadro estabilizar e o seu corpo voltar a tolerar o que tolerava.
Testam-se posições e movimentos específicos da coluna, em várias direções e repetidos, e observa-se o que acontece aos seus sintomas em cada um. Quase sempre há uma direção que alivia de forma consistente.
Não é uma lista de proibições. É perceber que gestos concretos do seu dia estão a alimentar o problema, e como os fazer de outra maneira durante esta fase.
Habitualmente um exercício específico, com o detalhe que importa: quantas vezes, com que amplitude e o que deve sentir. Se precisar de ser ajustado antes da próxima consulta, ajusta-se por mensagem.
Trabalho quase exclusivamente com coluna e dor persistente. Atendo sozinho — presencialmente no Parque das Nações, em Lisboa, e online. Quem responde à sua mensagem, quem faz a avaliação e quem ajusta o plano sou sempre eu.
Cédula profissional OF 6744, Ordem dos Fisioterapeutas. O objetivo declarado do meu trabalho é chegar ao ponto em que deixa de precisar de mim.
Conhecer o meu percursoSobre este padrão em concreto. Se a sua não estiver aqui, pergunte-me diretamente.
A grande maioria das dores de coluna com este padrão não é grave e melhora. Não lhe posso garantir resultados nenhuns — nem eu nem ninguém deve fazê-lo — mas posso dizer-lhe que este é um dos quadros que costuma responder melhor quando se encontra a direção certa de movimento.
Para a maioria das dores de coluna, a imagem de rotina não é recomendada. Não melhora os resultados do tratamento, e encontra com frequência achados sem relação com o que sente — que só acrescentam preocupação e levam a mais exames e intervenções desnecessárias. Mas há uma razão ainda mais prática: a imagem não muda a direção do tratamento. O que orienta o passo seguinte é a forma como você responde ao que estamos a fazer, não o que aparece numa fotografia tirada em repouso, sem se mexer. Se durante a avaliação encontrar algo que justifique exame, digo-lho e explico porquê.
Não lhe consigo prometer que resulte. O que lhe posso dizer é o que faço de diferente: passo o tempo necessário a testar direções de movimento e a observar o que acontece aos seus sintomas em cada uma, em vez de aplicar um protocolo igual para toda a gente. Se ao fim de algumas consultas não estivermos a ver mudanças, digo-lhe isso.
Na maior parte dos casos, sim — com ajustes pontuais em alguns movimentos, durante uma fase. Parar por completo raramente é a melhor decisão. O que fazemos é variar a direção e o tipo de estímulo até o quadro estabilizar, e depois voltar a subir a carga.
Nada nesta página substitui uma avaliação com um profissional de saúde. E há situações em que nem sequer é caso para fisioterapia:
é caso para atendimento médico urgente, no próprio dia.
Uma consulta médica no próprio dia, o mais depressa possível, com neurocirurgia ou ortopedia de coluna.
Não é caso para fisioterapia, nem para qualquer outro profissional de saúde.
E não é caso para esperar para ver se melhora. Aqui, o tempo é o que mais pesa no resultado: quanto mais depressa for visto por um médico, melhor.
Ver todos os sinais, por zona, e o que fazer em cada casoO que dói, há quanto tempo, e o que já tentou. Respondo eu, e digo-lhe com franqueza se me parece que consigo ajudar — ou se faz mais sentido indicar-lhe outro caminho.
Conversa inicial sem custo. Respondo sempre — e, na maior parte das vezes, no próprio dia.
Cashin AG e col. Revisão sobre lombalgia inespecífica. JAMA, 2026. — proporção de lombalgia inespecífica e de radiculopatia/estenose entre quem procura cuidados; alterações degenerativas na ressonância em pessoas sem dor lombar (74,4%) e com dor (77,8%); recomendações sobre o uso de exame de imagem; eficácia do exercício na lombalgia crónica e dos tratamentos invasivos.
Brinjikji W e col. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR American Journal of Neuroradiology. 2015;36(4):811-816. — prevalência de achados degenerativos em pessoas sem sintomas, por faixa etária.
Síntese de literatura sobre mitos e crenças em dor (Melzack 1999; Moseley 2003; Seki & Ouchi 2020) — fraca correlação entre dor e alterações estruturais em exames de imagem, em várias regiões do corpo.
O que nesta página não remete para estas referências é leitura clínica minha, assinalada como tal ao longo do texto. Nenhuma informação aqui substitui uma avaliação individual.