Mário Pereira  ·  Fisioterapeuta  ·  Cédula profissional OF 6744 Consultas  ·  Parque das Nações, Lisboa  ·  Online
Mário Pereira fisioterapeuta
Hérnia de disco lombar e cervical

Ter uma hérnia no exame não é o mesmo que ter dor por causa dela

São duas coisas diferentes, e confundi-las é a razão pela qual tanta gente vive anos com medo de se mexer por causa de uma imagem.

Quando o disco está mesmo a irritar a raiz do nervo, o quadro tem um desenho reconhecível — na lombar, a dor desce pela perna; no pescoço, desce pelo braço. E não é o exame que o revela: é a forma como o seu corpo responde ao movimento.

Reconhece-se em três ou mais?
A dor desce pela perna num trajeto contínuo, às vezes até aos dedos do pé
Passar abaixo do joelho é o limiar que me faz levar o caso mais a sério
Formigueiro, dormência, sensação de queimar ou de choque elétrico
Agrava a tossir, a espirrar ou a fazer força
Dói sentado, dói deitado e dói de pé — não há posição boa
Piora de madrugada e chega a não o deixar dormir
A dor desce pelo braço num trajeto contínuo, às vezes até à ponta dos dedos
Passar abaixo do cotovelo é o limiar que me faz levar o caso mais a sério
Formigueiro, dormência, sensação de queimar ou de choque elétrico
Dói sentado, dói deitado e dói de pé — não há posição boa
Piora de madrugada e chega a não o deixar dormir
Alivia ao pousar a mão ou o antebraço em cima da cabeça

A lógica é a mesma nas duas regiões — muda o trajeto. Este conjunto é o que costumo ver quando a hérnia está mesmo a irritar a raiz do nervo, e não serve para se diagnosticar.

5 a 10%
é a fatia de quem procura ajuda por dor nas costas em que a dor vem mesmo de um nervo comprimido — por hérnia ou por estreitamento do canal. Em todos os outros casos, não se consegue apontar com segurança uma causa na estrutura.
De onde vem este número

De uma revisão sobre dor nas costas publicada em 2026 na revista médica JAMA. A mesma revisão mostra que 74,4% das pessoas sem dor nenhuma apresentam alterações na ressonância.

Porque é que tanta gente tem hérnia e não tem dor

Porque o disco muda com a idade em toda a gente, tenha dor ou não. Uma protusão ou uma hérnia num exame diz-lhe que existe uma alteração naquele disco — não diz que é dali que vem o que sente.

O que muda tudo é saber se, neste momento, essa hérnia está a comprimir ou a irritar a raiz do nervo. E isso não se lê numa imagem tirada com a pessoa deitada e quieta: lê-se no trajeto exato da dor, na resposta a movimentos repetidos, nos testes de tensão do nervo, e na força e sensibilidade do membro.

Há um sinal que me faz sempre desconfiar do rótulo: alguém com diagnóstico de hérnia — na lombar ou no pescoço — que continua a treinar normalmente e só tem dor num movimento específico. Nesse caso, quase de certeza não é a hérnia que manda no quadro.

O padrão, em detalhe

Este quadro tem um comportamento próprio, bastante diferente de uma dor de costas comum.

Praticamente todas as posições

É o que distingue a hérnia de quase tudo o resto: dói sentado, dói deitado e dói de pé. Mexer-se pode dar um sinal de alívio, mas dura pouco e volta.

Estar sentado muito tempo

Uma viagem de carro, uma reunião longa, um voo. E levantar-se a seguir costuma custar ainda mais do que ter estado sentado.

Dobrar para a frente

Apanhar algo do chão, calçar sapatos, lavar a loiça. É o movimento que aumenta a pressão no disco.

Tossir, espirrar ou fazer força

Um espirro que dispara a dor pela perna abaixo é um sinal bastante característico deste quadro.

Estar muito tempo de pé

Ao contrário de outras dores de costas, aqui estar de pé costuma cansar depressa e aumentar a dor na perna.

A madrugada

Dor que piora de madrugada e não deixa dormir é dos sinais que mais me faz pensar neste quadro. É sempre uma das perguntas que faço em consulta.

Andar depressa ou muito tempo

Na fase aguda, mover-se muito tende a agravar — o contrário do que acontece na maioria das dores de coluna comuns.

Deitar-se e descarregar

Estar deitado de costas, muitas vezes com os joelhos apoiados ou dobrados, é a posição que mais alivia na fase aguda.

Posições que abrem espaço

Certas posições reduzem a tensão sobre a raiz do nervo. Descobrir qual é a sua, e ensiná-la, é dos primeiros objetivos da avaliação.

Repouso — mas por pouco tempo

Alivia, e é enganador: o alívio é curto, e ficar parado durante dias acaba por prolongar o problema em vez de o resolver.

Mudar de posição com frequência

Não existe uma posição certa para o dia todo. Existe não ficar demasiado tempo na mesma, seja ela qual for.

Movimento orientado, na direção certa

Quando se encontra a direção que não provoca, o movimento passa a fazer parte da solução em vez de ser a ameaça.

Andar devagar, distâncias curtas

Fora da fase mais aguda, caminhar pouco e muitas vezes costuma ser melhor tolerado do que andar muito de uma vez.

Horas ao computador ou ao telemóvel

A cabeça mantida à frente do corpo durante muito tempo é, de longe, a queixa mais repetida neste quadro.

Rodar a cabeça para o lado que dói

Olhar por cima do ombro ao conduzir, ou virar-se para falar com alguém ao lado, pode disparar a dor pelo braço abaixo.

Inclinar a cabeça para trás

Olhar para cima, lavar o cabelo no lavatório, ou estar no cadeirão do dentista. Fecha o espaço por onde sai a raiz do nervo.

A madrugada

Acordar com o braço a formigar, e a dor a agravar de madrugada a ponto de não voltar a adormecer. É dos sinais que mais me faz pensar neste quadro.

Pegar em pesos com esse braço

Um saco de compras, uma mala, uma criança ao colo. O peso aumenta a tração sobre a raiz já irritada.

Tossir, espirrar ou fazer força

Tal como na lombar, aumenta a pressão dentro do canal e pode disparar a dor pelo braço.

Pousar a mão em cima da cabeça

Muita gente descobre isto sozinha sem perceber porquê: levantar o braço e pousar a mão sobre a cabeça reduz a tensão na raiz e alivia. É dos sinais mais característicos deste quadro.

Apoiar o braço

Segurar o cotovelo com a outra mão, ou pousar o braço numa almofada, tira-lhe o peso e costuma acalmar os sintomas.

Uma almofada bem escolhida

Nem alta nem baixa: a que mantém o pescoço alinhado com o resto da coluna. Costuma fazer mais diferença do que se espera.

Posições que abrem espaço

Há posições e movimentos do pescoço que aumentam o espaço por onde sai a raiz. Encontrar qual é a sua é dos primeiros objetivos da avaliação.

Mudar de posição com frequência

Levantar-se e mexer o pescoço a cada meia hora vale mais do que qualquer postura perfeita mantida durante horas.

Movimento orientado, na direção certa

Vale aqui exatamente o mesmo que na lombar: encontrada a direção que alivia, o movimento passa a ser parte da solução.

O sinal de que vamos bem

Trazer a dor de volta à origem do problema.

A dor de uma hérnia costuma descer num trajeto contínuo — da lombar até aos dedos do pé, ou do pescoço até à ponta dos dedos da mão. Quanto mais abaixo desce, mais irritada está a raiz do nervo. Passar o joelho, ou passar o cotovelo, é o limiar que me faz levar o caso mais a sério.

Por isso o primeiro objetivo do tratamento é fazer com que essa dor deixe de descer na direção do pé ou da mão, e comece a deslocar-se para mais perto da coluna, subindo acima do joelho ou do cotovelo. Chama-se a isso centralização, e é o sinal mais positivo de que se está a ir pelo caminho certo.

E explico-lhe isto antes de começarmos, de propósito: a centralização acontece muitas vezes antes de a dor baixar de intensidade, e pode até vir com mais desconforto perto da coluna. Sem esse aviso, é fácil interpretar isso como uma piora — e abandonar precisamente a direção que estava a resultar.

No início

A dor passa o joelho — ou o cotovelo — e chega à extremidade.

A melhorar

A dor recolhe para junto da coluna. É este o sinal que se procura.

A altura da barra é até onde a dor desce. Subir é melhorar, mesmo que ainda doa.

O maior obstáculo não é a hérnia. É o medo de a piorar.

Quase toda a gente que chega aqui com este diagnóstico acredita que mexer-se vai empurrar a hérnia para fora. Muitas vezes ouviu isso de alguém — às vezes de um profissional de saúde, dito com a melhor das intenções.

O efeito dessa frase é sempre o mesmo: a pessoa deixa de se mexer, perde força, perde confiança, e o quadro instala-se. Frases como "não pode dobrar as costas" ou "se dobrar, a hérnia rebenta" fazem mais estrago do que o movimento que proíbem.

Uma parte importante do que faço em consulta é mostrar-lhe, ali, num ambiente seguro e controlado, que há movimento que pode fazer sem risco. Ver com o próprio corpo vale mais do que qualquer explicação minha.

O que é facto, e o que é a minha leitura clínica

Vem da literatura

Que alterações do disco aparecem em grande parte das pessoas sem dor nenhuma; que a dor causada por um nervo comprimido é uma minoria dos casos; e que fazer exames de imagem por rotina não é recomendado na maioria das dores de costas. Tudo isto vem de uma revisão publicada em 2026 na revista médica JAMA.

É leitura minha

O padrão de sinais descrito nesta página e a forma como interpreto a resposta ao movimento vêm da minha formação e da minha prática. Descrevem o que observo, não são um resultado garantido nem uma previsão sobre o seu caso. Digo-lhe sempre qual das duas coisas está a ouvir.

Perguntas frequentes

Se a sua não estiver aqui, pergunte-me diretamente.

Vou ter de fazer cirurgia?

A maioria das pessoas com este quadro não chega à cirurgia — mas não lhe posso garantir nada sobre o seu caso antes de o avaliar, e ninguém deveria. O que lhe posso dizer é que existem critérios claros para quando a cirurgia passa a ser a opção certa, e que se eu encontrar algum deles digo-lho e indico-lhe o caminho, em vez de continuar a tratar por teimosia.

Fazer exercício vai empurrar a hérnia para fora?

Não é assim que o disco funciona, e essa ideia faz mais estrago do que o movimento que proíbe. O que é verdade é que há direções de movimento que, nesta fase, agravam os seus sintomas, e outras que aliviam. O trabalho é encontrar quais são as suas — não parar de se mexer.

A hérnia volta ao sítio?

O disco não "volta ao lugar" como quem encaixa uma peça. O que muda, e é isso que interessa, é a irritação da raiz do nervo: com o tempo e com o estímulo certo, é frequente os sintomas reduzirem mesmo quando a imagem se mantém igual. É outra razão para não medir a sua evolução por exames repetidos.

Preciso de repetir a ressonância para ver se melhorou?

Quase nunca. A imagem muda muito mais devagar do que os sintomas, e repeti-la sem indicação clínica costuma acrescentar preocupação sem mudar nada no tratamento. O que orienta o passo seguinte é sempre o mesmo: o que consegue fazer, até onde desce a dor, e como responde aos testes de movimento.

Sinais que não podem esperar por uma marcação

Nada nesta página substitui uma avaliação com um profissional de saúde. E há situações em que nem sequer é caso para fisioterapia:

é caso para atendimento médico urgente, no próprio dia.

Na coluna, em geral
Dor forte que não alivia em nenhuma posição e que piora de dia para dia
Perda de sensibilidade que piora de dia para dia, numa perna ou num braço
Febre, sem nenhuma infeção conhecida que a explique
Perda de peso sem explicação — cerca de 10% do peso em seis meses, sem dieta nem exercício que a justifiquem
Quando a origem é na lombar
Podem indicar síndrome da cauda equina.
Dormência ou alteração de sensibilidade em toda a zona que a roupa interior cobre — genitais, períneo e parte interna das coxas
Deixar de conseguir segurar a urina ou as fezes
Ou exatamente o oposto: deixar de conseguir urinar ou evacuar
Perda de força numa perna, sobretudo se estiver a agravar
Quando a origem é no pescoço
Podem indicar mielopatia cervical.
Alteração da marcha que apareceu de repente — sensação de andar como se estivesse embriagado
Perder a força ou a sensação de repente e deixar cair da mão objetos leves
Ir perdendo mobilidade do braço de um dia para o outro
Falta de jeito nova em movimentos finos: abotoar, escrever, apanhar moedas
Nestes casos o caminho é só um: serviço de urgência.

Uma consulta médica no próprio dia, o mais depressa possível, com neurocirurgia ou ortopedia de coluna.

Não é caso para fisioterapia, nem para qualquer outro profissional de saúde.

E não é caso para esperar para ver se melhora. Aqui, o tempo é o que mais pesa no resultado: quanto mais depressa for visto por um médico, melhor.

Ver todos os sinais, por zona, e o que fazer em cada caso

Diga-me onde dói e por onde desce.

Duas linhas chegam. Respondo eu, e digo-lhe com franqueza o que me parece — incluindo se acho que o seu caso precisa primeiro de ser visto por medicina.

Conversa inicial sem custo. Respondo sempre — e, na maior parte das vezes, no próprio dia.

Referências

Cashin AG e col. Revisão sobre lombalgia inespecífica. JAMA, 2026. — proporção de lombalgia inespecífica e de radiculopatia/estenose entre quem procura cuidados; alterações degenerativas na ressonância em pessoas sem dor lombar (74,4%) e com dor (77,8%); recomendações sobre o uso de exame de imagem; eficácia do exercício na lombalgia crónica e dos tratamentos invasivos.

Brinjikji W e col. Systematic literature review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR American Journal of Neuroradiology. 2015;36(4):811-816. — prevalência de achados degenerativos em pessoas sem sintomas, por faixa etária.

Síntese de literatura sobre mitos e crenças em dor (Melzack 1999; Moseley 2003; Seki & Ouchi 2020) — fraca correlação entre dor e alterações estruturais em exames de imagem, em várias regiões do corpo.

O que nesta página não remete para estas referências é leitura clínica minha, assinalada como tal ao longo do texto. Nenhuma informação aqui substitui uma avaliação individual.